SONETOS DE #301 A #400


#301 DEMOCRATICO [1999]

Você pode engannar a toda gente
durante mezes, annos, certo prazo.
Você pode engannar, num outro caso,
um grupo limitado, eternamente.

O que não se permitte nem consente
é alguem manter no mais completo atrazo,
cagando em cyma, usando como vaso,
populações de todo um continente.

Paizes democraticos depuram,
ou pelo menos devem depurar
as falsas plataformas dos que juram.

Ostenta a temptação de inaugurar
a laia perdularia. Não perduram.
Será? Mas ninguem pode assegurar.


#302 MARITIMO [1999]

Viagem de Pessoa numa ode
o leva a desejar-se prisioneiro
na mão duma porção de marinheiro:
A mente delirante tudo pode.

Desculpe-me o leitor, não se incommode,
mas vou mais longe, atraz do canoeiro
que vive no archipelago, guerreiro
que tem a satyriase dum bode.

A tribu desse cara cata vivo,
depois duma battalha, um inimigo.
Tortura lenta é o fim do tal captivo.

Pros vis gurys da aldeia, seu castigo
vae ser divertimento primitivo.
Soffrer isso em pessoa é o que persigo.


#303 TERRESTRE [1999]

Extranha essa mania de quem macta
a fome degluttindo terra crua!
Não ha predilecção que a substitua
nem previa providencia que a combatta.

Chamou-se geophagia essa insensata
tendencia primitiva, que recua
ao tempo das cavernas, quando a lua
pedia ao lobishomem serenata.

Não chego a ser geophago, nem morro
de amores pelo gosto da poeira.
Tambem não fico uivando sobre o morro.

Apenas me sujeito, na cegueira,
a ser mais maltractado que cachorro,
lambendo o pó dos pés da terra inteira.


#304 CELESTE [1999]

O kosmo não me inspira qualquer pasmo,
qualquer perplexidade ou maravilha.
Até pelo contrario, é uma armadilha:
tão rara a luz, e as trevas pleonasmo.

Ja sei que vão chamar de iconoclasmo,
mas minha voz de cego só estribilha
que nada resplandece nem rebrilha.
Não ha no céu motivo p'ra enthusiasmo.

Silencio, solidão, escuridão.
A fim de ter a prova disso, basta
sahir da Terra, esphera de illusão.

Quem deste nosso fraco Sol se afasta
me dá logo carradas de razão:
A farsa do universo ja tá gasta.


#305 ANGELICAL [1999]

Não tive anjo da guarda, mas, emfim,
só sou cego, não mongo ou surdo-mudo.
Nem tudo vae tão mal assim... Nem tudo.
Dos males o menor... Pobre de mim!

Qual Gabriel nem Lucifer! Só vim
ao mundo para esparro dum parrudo.
Um cego não merece como escudo
siquer um cherubim ou seraphim...

Tem gente que faz pacto com o Demo.
Tem gente que prefere ser do Pae.
Mas eu não fico em duvida nem temo.

Quem tá por cyma um dia ainda cae.
Quem tá por baixo irá ao opposto extremo.
Com anjo ou sem, o cego em frente vae.


#306 PUTANHEIRO [1999]

Putana, prostituta, marafona,
rameira, pistoleira, meretriz...
Alem do que o synonymo nos diz,
existe uma perita em cada zona.

Nem tudo na mulher é mera conna:
ha a bunda, o seio, a rotula, o nariz...
Cliente mais exotico, feliz,
a velha zona erogena abandona.

É o caso do podolatra, que quer
o pé della em sua bocca e no seu phallo,
ou pôr seu pé na bocca da mulher.

Do fetichista cego ja nem fallo,
pois seu desejo não é pé qualquer,
mas o que tem chulé, frieira e callo.


#307 PUNHETEIRO [1999] (*)

Si "circle jerk" é roda de punheta,
ja fica desde logo demonstrado:
brinquedo de gury não é quadrado.
A mente dum adulto é que é careta.

Pensando nos peitinhos, na boceta,
mas vendo os colleguinhas lado a lado,
libido de menino é complicado:   (*)
bedelho mette em tudo, esse xereta!

Pentelho inda não tem, e ja maneja
com toda a habilidade seu cacete,
expondo a cabecinha de cereja.

Lembrar do pirolito e do sorvete
é quasi que automatico. Fraqueja
um delles, e na turma faz boquete.


#308 CHUPETEIRO [1999] (*)

A bocca que colloca a voz e o canto
é a mesma que perpetra o mais nojento
e torpe gesto humano, que ja enfrento
nas trevas, entre o estupro e o proprio pranto.

Tal acto é a fellação. Sabe Deus quanto
um homem desce ao poncto onde me aguento!
O penis me penetra cem por cento,
e ja nem sei si chupo ou si garganto!

Pareço mentiroso, mas não minto:
embora a contragosto, vivo prompto
a dar buccal prazer a qualquer pinto.

Si julgam que é mentira, dou desconto:
até o prepucio, sou eu que consinto;
dalli ao coito fundo, augmento um poncto.


#309 BOCETEIRO [1999]

Pequenos, grandes labios, um clitoris.
Pentelhos. Secreção. Quentura molle,
que envolve meu caralho e que o engole.
Não saio até gozar, nem que me implores.

Diana. Dinorath. Das Dores. Doris.
Aranha. Taturana. Ovelha Dolly.
Pelluda, cabelluda, ella nos bolle
na rola, das pequenas às maiores.

Boceta existe só para aguçar
a fome dos caralhos em jejum.
Queremos bedelhar, fuçar, buçar!

Agora não me fallem do bumbum!
Do pé tampouco! Vou despucellar
o buço dum cabaço, acto incommum.


#310 VANDALO [1999]

Emquanto um engraxate, a contragosto,
prepara-se p'ra mais uma engraxada,
o cara tira o pé da caixa usada
e apoia-lhe o solado sobre o rosto.

As costas tem de encontro ao tosco encosto
do banco o commodista camarada.
Ja a cara do engraxate está pisada.
Só falta a lingua, então, sentir o gosto.

O vandalo isso exige, pois o pobre,
humilde serviçal enxerga mal
e a vida ingrata obriga a que se dobre.

A lingua faz serviço de animal
até que nenhum grão de terra sobre.
Mais vale ser um cão que maior mal.


#311 TANTALO [1999]

Tormentos são momentos. Dor eterna
é tão insupportavel quanto o gozo
que nunca terminasse, caudaloso
lençol abastecendo uma cisterna.

Não ha mal que não finde, nem interna
pressão total do humor glaucomatoso.
Um parto não é sempre doloroso.
Nem sempre uma gangrena amputa a perna.

A dor, como um orgasmo, é passageira.
Não fosse assim, o corpo acostumava,
e o ferro em brasa não fede nem cheira.

Sem duvida, a tortura é nossa escrava,
excepto em se tractando de cegueira,
que, quanto mais perdura, mais se aggrava.


#312 TRIBUTARIO [1999]

Em Roma se pagava p'ra cagar,
mas hoje a taxação tem melhor nivel.
O imposto sobre a merda é deductivel
do grosso que teremos de pagar.

Não ande em contramão, va devagar.
As mulctas são pesadas, coisa horrivel!
Ja não se tracta mais de "causa civel":
"tributaristas" temos que tragar!

O Harrison ja disse que a receita
lhe deixa um só, retendo dezenove.
Tá achando sua parcella muito estreita?

A origem da sua grana então comprove,
sinão a mão em tudo ella lhe deita!
Só falta tributarem quando chove!


#313 TRAVESTI [1999]

Chamar de "transformista" não explica.
Chamar de "drag queen" não falla exacto.
A explicação se encontra alli no acto,
pois no logar da conna está uma pica.

Hormonios, silicone, tudo indica
a feminilidade no seu tracto.
Talvez algo maior seja o sapato,
mas no conjuncto pouco modifica.

À noite pesa a barra do traveco
que faz a viração pela calçada
à cata dum bandido, um tira, um reco.

Na fria solidão da madrugada
às vezes o prazer vae ter seu echo:
Um grito. Um corpo. Um tiro. Uma facada.


#314 EDULCORADO [1999]

De commentar uns doces não excappo.
Baba-de-moça dá-me agua na bocca.
Olho-de-sogra crê que a gula é pouca.
Pappo-de-anjo é pouco, e fim de pappo.

Dos fios d'ovos não sobra fiapo.
A casca do crocante nunca é oca.
Recheio em chocolate é coisa louca.
Pé-de-moleque exige guardanappo.

Assucares alegram nossa vida
e ajudam a esquecer uma amargura,
mas só por um momento, uma lambida.

Mais duro que a mais dura rapadura
é não poder ver cores na sortida
vitrine da doceira que inaugura.


#315 SALGADINHO [1999]

Qual Laura, Beatriz, Ignez, qual nada!
Não vou ficar bancando o menestrel!
Prefiro umas fricturas no papel
em vez de enaltecer a namorada.

O gosto dum croquette ou duma empada,
dum kibbe, duma esfiha ou dum pastel,
do fino canapé no coquetel,
melhor é que a melhor foda sonhada!

Não ha o que se compare ao torresminho
comido a tiragosto, por quitute!
Do bacalhau se faz o bom bolinho!

Quem preferir chamegos que permute!
Não troco o paladar pelo carinho!
Gosto de solteirão não se discute!


#316 BRAZILIANISTA [1999]

A historia do Brasil, vista de fora,
tem cara de chacina suburbana.
Paiz continental, caldo de canna,
amargos episodios commemora.

Palmares e Canudos, quem deplora?
Mascates, Guararapes, quem se ufana?
Farrapos da policia alagoana
são dividas de sangue sem penhora.

Insistem que o paiz foi incruento,
o opposto de outros ponctos do barril
de polvora, um planeta de sargento.

Mentira deslavada! Esse Brasil
não passa dum quintal sanguinolento,
avicola da paz, guerra civil!


#317 BRAZILIANISTA #2 [1999]

Brasil é uma união de nações lusas.
Na America hespanhola se separam.
Aqui pensamos ser o que contaram.
Frustradas tentativas são occlusas.

A Inconfidencia em Minas tem suas musas.
Paulista em trinta e dois, nos suffocaram.
O grito Farroupilha, nos calaram.
Razões do Contestado são confusas.

A Confederação foi do Equador.
Diversos Uruguays tentamos ser,
mas somos Paraguays com mais calor.

P'ra la de Tordesilhas p'ra valer,
separatismo aqui não tem valor.
Confraternização para inglez ver!


#318 CANINO [1999]

O mais fiel amigo e companheiro,
do cego o guia e agil caçador,
tem raças variadas, desde o amor
até a ferocidade do açougueiro.

O dalmata, o pastor, o perdigueiro,
o fila, o pekinez, o labrador...
Conhecem nossos pés pelo sabor.
Nossas cabeças sacam pelo cheiro.

Mais longa que do cocker uma orelha
é a forma do bassê: uma salsicha.
Nenhuma raça em graça lhe é parelha.

A patta é curta e torta, o corpo espicha.
O olhar ao da tristeza se assemelha.
Sim, perto do bassê fofura é ficha!


#319 PHILIPPINO [1999]

Imelda Marcos foi famosa dama
por possuir milhares de sapatos,
emquanto mil denuncias de maus tractos
faziam do regime triste fama.

Um professor foi preso de pyjama,
tirado da sua cama pelos rattos.
Levou pelo nariz nojentos jactos
de fetida agua suja em meio a lama.

Andando de joelhos, percorria
um trecho sobre brasa de churrasco,
e seu torturador, folgado, ria.

O filho adolescente do carrasco
surrava o professor numa folia,
gozando seu vexame e seu fiasco.


#320 A BO DIDDLEY [1999] (*)

Bo Diddley, personagem de si mesmo,
o rock não creou, mas derivou.
O radical creoulo dava um show
à parte, sem fazer pesquisa a esmo.

Do porco fez seu proprio e bom torresmo,
battida que da rumba elle roubou.
Seu fan numero um sei que não sou;
Contento-me si for mesmo o millesimo.   (*)

Estones, Byrdos, Troggos, Animaes,
imitam elles todos a quadrada
guitarra do negão, e inda tem mais:

Machista p'ra caralho, a mulherada
faz fila p'ra sahir com o rapaz
que agora é MAN, palavra solettrada.


#321 ESQUERDISTA [1999]

Emquanto os verdadeiros esquerdistas
appellam p'ra guerrilha e pro terror,
os intellectuaes se dão valor
apenas porque pensam nas conquistas.

Cantores, professores, jornalistas,
o actor, o padre, o musico, o doutor
na feira das vaidades dão à cor
vermelha varios tons, marchands marxistas.

Prestigio tem aquelle que se diz
das causas populares paladino.
Na practica, o guru se contradiz.

Annel, carro importado, vinho fino.
Ao cheiro do povão torce o nariz,
mas brinda ao seu Guevara, ao seu Sandino.


#322 HOLOCAUSTICO [1999]

Pegaram um tarado que mexia
no matto com a filha do pedreiro.
Lyncharam-no alli mesmo, qual vespeiro.
Correu a farra até o final do dia.

Moleques tinham parte na folia.
Flambaram o coitado com isqueiro.
Seus olhos atulharam com argueiro,
e a bocca da privada foi bacia.

No fim, queimaram vivo o desgraçado
p'ra vel-o debatter-se em soffrimento.
Achavam o espectaculo engraçado.

Me lembro de seu choro e seu lamento,
a cara sob a sola do calçado
de gente egual a tão mau elemento.


#323 DIREITISTA [1999]

Emquanto os verdadeiros direitistas
dão golpes e se installam no poder,
eunuchos patrulheiros do lazer
censuram filmes, videos e revistas.

Se julgam da moral especialistas,
dictando o que devemos ou não ler.
Masturbam-se, porem, sem poder ser
na practica os taes sadomasochistas.

Fascismo pela imprensa é rotineiro.
Civismo pretextando, educadores
defendem a creança o tempo inteiro.

Mal sabem os palhaços dictadores
que os filhos não se trancam no banheiro
e agora accessam tudo, ao vivo, em cores...


#324 CENTRISTA [1999]

"Extremos nunca! Não me comprometta!"
Assim diz quem é neutro e não se allia
à febre material da burguezia
nem ao materialismo de canneta.

"Nem a favor, nem contra!" É uma ampulheta
parada, cuja areia entope a via
e nunca sae do horario: meio-dia.
Não caga nem levanta da retreta.

"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra", diz.
"Nem oito, nem oitenta", diz tambem,
alheio à divisão dos dois Brasis.

É vacca de presepio e diz amen,
até que a voz das urnas ou fuzis
lhe jogue em plena cara quem é quem.


#325 MATERNAL [1999]

Xodó como o de mãe não tem egual.
Tem dó do filho mesmo si elle for
um Chico Estrella ou Jack, o Estripador.
Beijinhos dá no monstro mais brutal.

Da mãe mamma e desmamma um animal.
Um filho não quer só dever favor:
quer vir a ser do amor merecedor,
ainda que se incline para o mal.

Algumas mães são casca de ferida,
peores do que o filho que lhes puxa.
Herdar pendor materno é lei da vida.

O gordo é procedente da gorducha.
Politico é rebento da bandida.
O mago é primogenito da bruxa.


#326 PATERNAL [1999] (*)

Por que Deus nunca é mãe? Por ser severo?
O homem necessita auctoridade.
Só ama a quem receia, essa é a verdade.
Por isso amava um Pae, temia um clero.

Não é o rigor paterno que venero,
mas sim a sapiencia duma edade
que ja conhece Christo, Buddha e Sade,
Homero e Judas, Socrates e Nero.

Camões na poesia sirvo e amo,
"mas não servia ao pae, servia a ella",   (*)
pois sou filho bastardo desse ramo.

Em meio a numerosa parentela,
me sinto até caçula quando chamo
Bocage de tithio, mana a Florbella.


#327 FRATERNAL [1999]

Irmãos são nobre exemplo de união,
peccado abominavel sendo o incesto,
assumpto sobre o qual me manifesto
de modo favoravel, de antemão.

Caim mactou Abel, mas varios são
os casos do bem claro e carnal gesto
de amor, mais acceitavel que o funesto
extremo do homicidio entre os de Adão.

Os Corsos, os Metralha, os trez do Groucho...
Dependem uns dos outros na labuta,
no crime, na aventura ou riso frouxo.

É logico que os filhos duma puta
fornicam entre si, sem um muxoxo,
siquer uma resalva diminuta.


#328 GORDO [1999]

Emilio de Menezes aproveita
a lenda de seu porte arredondado:
Com brilho, trocadilhos tem bolado,
e às vezes os limites não respeita.

De bonde viajando, certa feita,
sentou no mesmo banco, lado a lado
com outro typo gordo avantajado,
mas tanto peso o assento não acceita.

"Primeira vez que vejo", disse, "um banco
quebrando, não por falta, por excesso
de fundos!", no seu tom jocundo e franco.

Sem duvida, o segredo do successo
do gordo é não deixar passar em branco
a chance de gozar seu proprio sesso...


#329 MAGRO [1999]

Coitado de quem teme ser obeso,
pois vive se privando dum bom prato,
comendo só ração, porções de matto,
de olho nos limites do seu peso.

À estupida dieta o cara é preso.
Magerrimo, parece estar, de facto,
num campo de exterminio, sob ingrato
regime de castigos e desprezo.

Costellas tem à mostra, e inda se acha
saudavel! Si mulher, belleza pura,
do seu cholesterol medindo a taxa...

Babaca! Emquanto malha na tortura,
seu sabio e nedio medico relaxa
e vae se empanturrando de frictura...


#330 ALTO [1999]

Nos apices, nos pincaros da gloria,
nos cumulos, pinnaculos, cymeiras,
nos cumes, cymos, topos, cumeeiras,
nas cupulas, nos domos da memoria.

É la que todos querem ver notoria
sua obra, biographia, suas asneiras,
ainda que não passem de toupeiras
nascidas por fortuna compulsoria.

Mais crassa a estupidez do troglodyta,
maior o posto ao qual quer fazer jus.
"Só sei que nada sei!", o sabio cita.

É por essas e outras que me puz
aos pés do mais folgado parasita:
Maior meu brilho, mais me falta a luz.


#331 BAIXO [1999] (*)

Baixo calão, baixeza, baixaria.
O baixo meretricio brasiliense.
Baixo Leblon. Baixada Fluminense.
Que mais? Cidade Baixa na Bahia.

O Baixo Clero, a Camara vazia.
Maré, caixa, estação. Falso nonsense.
O appello vão da magica circense.
Recurso ao palavrão na poesia.

A escala de valores é uma escada.
No alto fica a fama e a fortuna.   (*)
No chão está o motivo da piada:

O cego impertinente que importuna.
Pisar-me a cara rende uma risada,
degradante degrau. Pise! Me puna!


#332 CHROMATOLOGICO [1999]

O branco é sommatoria; o preto, ausencia.
O verde é o tom de azul com amarello.
O cinza é um preto e branco menos bello.
Violeta é um desafio p'ra sciencia.

Marron e creme é mera consequencia.
Abobora e laranja não pincello.
Magenta e seppia existem só no prelo.
Vermelho é communista ou emergencia.

Mania do pintor, como do vate,
as cores são constantes citações:
carmim, rosado, purpura, escarlate.

Nuances, sangue em manchas e borrões
fizeram do meu olho este tomate,
e só guardei da cor recordações.


#333 CHRONOLOGICO [1999]

Noventa e nove. Fim dos novecentos.
Apoz ter sonetado com motivo,
ou seja, da cegueira ao transgressivo
fetiche oral do pé, dos mais nojentos;

Apoz revisitar tantos eventos
a fim de demonstrar que inda estou vivo,
constato que a fruição de que me privo
não foi sinão ephemeros momentos.

Desilludido, nada mais espero,
alem da assiduidade do meu membro,
que volta, apoz o gozo, à estacca zero.

Fallei de tudo aquillo que relembro.
Agora um merecido tempo quero.
São Paulo, dezesepte de dezembro.


#334 SUICIDA [2000]

O Stefan foi desgosto pela guerra.
Tambem Sanctos Dumont foi desalento.
O de Torquato e Pericles lamento,
mas o de Allende ou Hitler nada encerra.

Razões de Anna Christina estão na terra.
Jim Jones e outros loucos nem commento.
Mishima foi solenne em seu intento.
No de Getulio o povo é quem se ferra.

Difficil é saber quando é covarde
ou quando é da coragem o disfarse.
É cedo? É tempestivo? É sempre tarde?

Talvez a eternidade na catharse.
Talvez o fatalismo que me aguarde.
Ninguem derrota a morte sem mactar-se.


#335 CATASTROPHICO [2000]

As taes calamidades naturaes
parecem pueril, divino jogo:
vulcão, tornado, secca, neve, fogo...
Si não for o bastante, inda tem mais:

Enchentes, terremotos, vendavaes...
Visões finaes dum mago demagogo;
São Pedro a mil, podrão, pullando o pogo...
Jesus Christo, escutae os nossos ais!

Que bom si a humanidade se virasse
que nem barata tonta no terreiro,
só ella e uma gallinha, face a face!

Mas, quanto mais se pisa o formigueiro,
mais rapido a formiga volta e nasce.
Deus gringo, mas o povo é brasileiro.


#336 GAUCHO [2000]

Estado muito proprio em seu costume,
o mais meridional ostenta as botas,
churrasco, chimarrão, e tu, que arroctas
machismo, tens razão: temos ciume.

A chique distincção tudo resume:
gauchos de bombachas são janotas.
Desaggravando a fama de Pelotas,
não ha neste paiz quem mais se aprume.

Si minha amada fosse minha prenda,
eu prenderia a china como gado:
comprava, aproveitava e punha a venda.

Mas sou sozinho, cego, hallucinado:
do Pampa, bem pimpão numa fazenda
me vejo, e por vaqueiros sou montado.


#337 MINEIRO [2000]

Collinas? Belzontinas? Diamantinas?
Como defines Minas? O caminho?
A pedra? Matto Dentro? Muzambinho?
Talvez, mineiramente, não definas.

Meninas recatadas não são Minas.
Nem é só Milton, Rosa, Aleijadinho,
o alferes, o politico, o meirinho,
gurys traquinas, criticos sovinas.

Gilberto Freyre falla dos mineiros
affeitos a bolinas em seus pés
descalços das botinas de tropeiros.

Não sei dizer si o és ou si não és.
Só quererei teus queijos e teus cheiros,
anonymo João entre os Josés!


#338 BAHIANO [2000]

Caymmi ja cantou. Não quero tanto.
Gregorio poetou. Apenas sigo.
Amado descreveu, e estou comtigo:
é tua terra altar de todo sancto.

Me toca o berimbau. Me encanta o banto.
Retoca o pelourinho meu castigo.
Atraz do trio electrico me instigo:
sou postropicalista, e aqui te canto.

Bahiano, tens meu sonho e meu tesão:
bananas, cocos, caras, cores... yes!
Pirocas, carurus, cuscuz, pirão...

Moquecas, vatapás, acaragés...
Delicias que, de longe, abaixo estão
do gosto salgadinho dos teus pés!


#339 RECYCLADO [2000]

Vivemos chafurdando em podriqueira.
Os ares se saturam de impureza.
As fezes empesteiam a represa.
Agua ja sae fedendo da torneira.

Nas carnes o sabor travado beira
a decomposição. À mesma mesa,
tresanda uma fructeira e mantem presa
a má respiração de quem a cheira.

Soccorro! Vou morrer contaminado!
Nas vascas da agonia ja estertoro,
somente prelibando meu boccado...

Que nada! O conservante, o vento, o chloro
disfarsa a podridão do mau estado...
Vomito, volto, voto, e ja melhoro.


#340 SYNTHETICO [2000] (*)

De como a poesia é definida
depende a trajectoria do poeta.
Qual é, pergunto, a formula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?

Segundo Rilke, a lyra não duvida,
mas Eliot é turrão, e tudo objecta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.

Divergem tantos mestres só no tom.
Não ha por que dar tractos ao bestunto:
ha chimica no verso, não um dom.

Qualquer opinião, qualquer assumpto
será, verdade ou não, poema bom
si for densa a fracção, breve o conjuncto.


#341 BOQUIROPTO [2000]

Convicto estou que muitos advogados
são inda mais bandidos que o cliente.
Tambem creio que os réus teem costa quente,
e vendem a sentença os magistrados.

Certeza tenho accerca dos telhados
de vidro sobre a casa dessa gente.
Politicos, do alcaide ao presidente,
são cornos ou, no minimo, veados.

Ainda que nenhum delles assuma,
passiveis todos são dum tribunal.
Agora o bicho pega e a cobra fuma!

Só julgo porque sei mais que o jornal.
Porem, como não tenho prova alguma,
jamais declararia coisa tal.


#342 COLLATERAL [2000]

Usina de Sonetos é meu nome,
assim disse um dos criticos mais lidos.
Tão logo chega a nota aos meus ouvidos,
com garbo de janota digo: "Tome!".

Me gabo, mas a dor que me consome
disfarso entre lattidos e gannidos,
prostrado aos pés de amigos e bandidos,
fingindo estar de bem com minha fome.

Cegueira não é fonte de trabalho,
nem é meu retifismo escolha calma.
A cruz não é caminho, nem atalho.

Conheço como a sola, ou como a palma,
aquillo para cuja trilha calho:
Poemas são symptomas do mal d'alma.


#343 CACOEPICO [2000] (*)

É má cacophonia "heroico brado",
que faz o nosso hymno ser por cada
macaco no seu galho de piada
motivo, mytho presto profanado.

Galhofo quando grapho "deputado",
um réu por cuja mãe a patria brada
e cuja nota tem que amar mellada
a puta que a recebe de ordenado.

Por ti gela meu pinto, e por ti são
meus bagos exmagados qual sardinha,
ó lingua de tão baixo palavrão!

Dos cacos que cuspi, calou Caminha.
A mim toca, comtudo, uma questão:
Si ja Camões fez caca em "Alma minha"...


#344 FEMINISTA [2000]

"Mulher tem que chupar sem reclamar!"
A banda de Brasilia não perdoa.
Seu rock a femea humilha, e o que apregoa
reflecte algum machismo em cada lar.

"Mulher tem que gemer! Tem que apanhar!"
Insiste o rock, e zoa, inda que doa
na seria consciencia da pessoa
humana, que não cabe em seu logar.

Parir, amammentar, dar gozo, é tudo
que os homens lhe concedem, grita a dicta,
afora o affan domestico, que é mudo.

Às vezes, uma ou outra se habilita
nas artes, no poder, no amor, no estudo...
Mas só se faz capaz si for bonita.


#345 CAETANICO [2000]

Arauto da verdade tropical,
cantou nomes de nomes, como Arrigo,
Jacintho Pinto Aquino Rego, digo,
Mattoso, Mattos, Tons, Tins, Bens, e tal.

Propoz orientar o carnaval,
e a nave conseguiu singrar comsigo.
Tractou de egual p'ra egual o joio e o trigo.
Junctou sopa com mel, mammão com sal.

Aos probos prohibiu de prohibir.
Aos pobres deu licença de brilhar.
Bebeu da juventude um elixir.

Tem mais caetanidade em caetanar
que aos outros anthroponymos ser Sir.
Seu Zé não é Caetano, uns nunca é par.


#346 PERCENTUAL [2000]

Mandei um questionario por correio.
Indago sobre o cego, si o boquete
é sua obrigação. Responde à enquete
um grupo que desfructa o azar alheio.

"O cego é um inferior", diz um, "e creio
que até tem de chupar pau de pivete."
Um outro diz que o cego se submette
sciente que é cobaya no recreio.

Resumo da pesquisa: dez por cento
são contra a humilhação do ser humano
e poupam ao ceguinho outro tormento.

Noventa, porem, curtem rindo o damno
moral e corporal do pau que aguento
na bocca, ouvindo o gozo do fulano.


#347 VÃO [2000]

Alguem chega e me diz que o tal rapaz
é mesmo filho meu, mas nunca o vi.
Nem elle me verá, pois resolvi
que é morto um pae perdido ou incapaz.

A mãe de mim não sabe, e tanto faz
si enxergo ou si estou cego. Ja cahi
no limbo. Sou tenaz, mas e dahi?
Ninguem agrada alguem por ser tenaz.

Às vezes paro e penso si ja fiz
as coisas que dum homem são missão:
gerar, crear, pôr tronco na raiz.

Fiz livros. Tenho um filho. Arvores são
cortadas. Filhos partem. Infeliz
do auctor crente que é lido, quando não!


#348 SYNTACTICO [2000] (*)

Posso ser sapphico ao invez de puro.
Posso ser sadico ao invez de escravo.
Posso ser timido ao invez de bravo.
Posso ser cego e versejar no escuro.

Nunca terei preoccupação si duro,
si a poesia nem na mente gravo.
Si minha lyra vale algum centavo,
deve-se ao pau, que se mantem bem duro.

Faço o poema que em latim fallasse,
por mais questão que um vanguardista faça
de combatter a natural syntaxe.

Que bem me importa si me achar "reaça",
desde que eu passe o que quizer que passe!
Ladram os cães e a caravana passa!


#349 INOFFENSIVO [2000]

Censuram duramente o Bolsonaro,
que quer ver fuzilado o presidente.
Brizolla disse o mesmo, e certamente
traduz o que o povão ja deixou claro.

Merece, todavia, algum reparo
a grande differença que se sente:
Brizolla é quem uns querem que se sente
no throno hoje occupado pelo ignaro.

La vem de novo a velha conclusão:
Dois pesos e medidas são receita
p'ra ver si uma ameaça é grave ou não.

Si o raro corajoso é de direita
vae ser alvo de hostil perseguição.
Si for de esquerda, a turma toda acceita.


#350 INFERNAL [2000] (*)

Nos Estados Unidos, trote é barra.
Calouro la está abaixo de engraxate.
"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate!"   (*)
Quem entra em faculdade é boi na farra.

Rasteja em mijo e lambe o chão na marra.
Careca e "maquiado", ganne e latte,
de quattro, aos pés do "dono", que lhe batte
e, bocca adentro, cospe, esporra, escarra.

"Hell week" é como chamam a semana
durante a qual novatos são vassallos
emquanto o veterano os atazana.

Republica é "fraternity", e chamal-os
de irmãos, allegoria americana,
não é trote, é galope. São cavallos.


#351 KARMICO [2000] (*)

Quinhentas e cincoenta e cinco peças
perfazem as sonatas de Scarlatti.
Nivelam-se, em altissimo quilate,
à Nona, à Monna Lisa, qualquer dessas.

Farei tantos sonetos? Não m'o peças!
É meta muito herculea para um vate!
Recorde desse porte não se batte:
no maximo se eguala, e nunca às pressas.

Ja fiz mais que Camões, mais que Petrarcha:
dois, dois, dois; trez, trez, trez; de pouco em pouco,
que a lyra tambem broxa... É porca. É parca.

Poeta que for cego, mudo ou mouco
compensa a privação com a fuzarca:
diverte-se soffrendo. É glauco. É louco.


#352 DESERTADO [2000]

Da Terra cidadão, mas Brasileiro.
Da Patria amada ufano, mas Paulista.
Exempto Bandeirante, mas bairrista.
Quiçá kosmopolita, mas caseiro.

Ninguem é universal o tempo inteiro.
Errante, minha bussola equidista
do inferno nordestino ao céu sulista:
Nem astronauta sou, nem marinheiro.

Turista só desfructa da viagem
por causa da visão. Si for um cego,
qualquer logar será a mesma paizagem.

Na vasta escuridão onde navego
fronteiras inexistem. Sem miragem,
tão só por ser terraqueo me segrego.


#353 BEATLEMANIACO [2000]

John Lento é devagar, mas vae ao longe.
No galho, Paul Macaco vira fera.
No coppo, Ringo Estrago é bom battera.
No mantra, George Arraso é quasi um monge.

Os Kinkos, mais chronistas? Não sei onde!
Os Byrdos, mais barrocos? Quem lhes dera!
Estones, mais pauleira? Ora, pudera!
Ficaram nos cincoenta, atraz do bonde!

"Não fosse a Yoko Ono", diz um fan,
"tocavam até hoje, todos vivos!"
"A culpa foi do Brian, bicha van!",

opina um outro. Em summa, pelos crivos
do tempo, até que o Ringo foi galan...
Mais idolo é um dos Beatles nos archivos!


#354 PUERICULTURAL [2000]

Creanças são cappetas, ja foi dicto.
Menina é nymphetinha que seduz.
Garoto é trombadinha, e um dos exus
foi coroinha quando pequetito.

Quem pensa que são anjos está fricto.
O estuprador de bocca esporra puz,
e o fodedor mais sadico de cus
é impubere, do Piva o favorito.

Superam-se, comtudo, não na cama,
mas como capatazes dum adulto
que em trabalhos forçados se azafama.

Moleque, quanto mais carente e inculto,
mais duro é seu cacete, quando o mamma
um homem humilhado pelo insulto.


#355 PRIMARIO [2000]

Retorno eternamente àquella eschola
na qual pagava todo dia o pato
por ser estudioso. Com mau tracto
vingavam-se os collegas do boiola.

Faziam-me chupar suja a pistola.
Me olhavam rastejar em meio ao matto.
Pezinho de dedão mais curto, e chato,
cobria minha bocca com a sola.

Lambi seus tennis podres, encardidos.
Bebi seu mijo quente, amarellinho.
Seu riso ainda está nos meus ouvidos.

Hoje não bebo mijo, bebo vinho.
Não vejo cores: sonho com bandidos.
Da rosa, só o perfume: nem o espinho.


#356 SECUNDARIO [2000]

Pensavam que eu seria sempre o pato.
Entrando no gymnasio, porem, mudo:
Me torno um lider, pois sou sabetudo,
e alguem a quem dei colla fica grato.

Ninguem mais me dá pau: sou eu que batto.
Embora fraco, a turma é meu escudo.
Sou tão bom de banzé quanto de estudo.
Glauquinho Mattosão, eis meu retracto.

Um dia, peguei um dos que me usaram,
no tempo do primario, como escravo.
Curravam-me, mas hoje nem me encaram.

Cobrei-lhe até seu ultimo centavo:
Obrei no chão. Meus cabras o obrigaram
na marra a degluttir meu desaggravo!


#357 SUPERIOR [2000]

Chegando à faculdade, me deparo,
ao vivo, com o trote. Não na minha,
porem na engenharia, alli vizinha.
Calouros nesse tempo pagam caro.

Um typo de engraxate não tão raro
os fazem performar: um delles tinha
que usar a lingua em vez da flanellinha!
A scena me desperta o velho faro.

Disfarso-me de bicho e, noutro dia,
mixturo-me aos demais, até ser pego.
Agora virei alvo da folia!

Engraxo o veterano mais labrego,
lambendo-lhe a poeira que cobria
os tennis. Mas, fingindo, peço arrego...


#358 COINCIDENTE [2000] (*)

De bibliothecario foi o grau
primeiro que collei, e uma collega
nisei foi a primeira que se entrega
a mim. Não titubeio, e creio: Crau!

Não fui, porem, apenas lobo mau,
nem ella brincou só de pega-pega.
A gente cria laços e se apega
ao outro, quando está na mesma nau.

Tambem ella soffrera hostilidade
dos paes, mais japonezes que os do Imperio,
e tinha em mim alguma affinidade.

Nós eramos à parte, um caso serio.
Kodama foi do Borges, mas quem ha de   (*)
ser minha, quando cego? Que mysterio!


#359 REINCIDENTE [2000]

Nos livros respirei litteratura.
De bibliothecario para auctor
a differença é pouca: está na cor
da cappa ou na lombada da brochura.

Mas nunca encontra aquillo que procura
quem sonha em ser do Borges seguidor:
Terá seu labyrintho aonde for,
e a cada dia a noite é mais escura.

Meus livros e os de Borges, mesma estante...
Será? Que paulistano desvario!
Serei Bocage ou Sade? Homero ou Dante?

Meu olho ja estaria por um fio.
Planejo um suicidio, mas distante,
e parto de São Paulo, rumo ao Rio.


#360 INFERIOR [2000] (*)

Mudei-me para o Rio desolado.
Perdi minha nisei. Nem vi o diploma.
Temendo o aggravamento do glaucoma,
queria me atirar do Corcovado.

Pensei no Assis Valente, outro coitado
que de autocompaixão fatal se toma.
A calma da visão, porem, me embroma,
e a tragica opção fica de lado.   (*)

Ao pé do Pão de Assucar, pelo Aterro,
caminho, sob o effeito azul do clima,
tentando achar as causas de algum erro.

A luz do sol me aquece e reanima.
Farei um bom proveito do desterro.
Fiquei por baixo. Agora estou por cyma.


#361 NIVELADO [2000]

Uns são Napoleões, outros são Momos.
Ninguem escolhe si é plebeu ou rei,
ou de onde vem, ou pronde vae. Voltei
do Rio apoz colher amargos pomos.

Nem sempre intimamente nos expomos.
A contribuição, si é que a dei,
ao foro nacional da causa gay
foi ter proposto um nome ao grupo Somos.

Primeiros activistas da libido,
luctei, com elles, pela identidade,
mantendo o masochismo reprimido.

Deixei de lado, um pouco, o culto a Sade.
Amei o egualitario sem ter sido.
Fui gay no platonismo e na amizade.


#362 TRANSITORIO [2000]

Tornei a me envolver com japoneza,
depois de militar na causa gay.
Vencido pelo olhar de outra nisei,
rendi-me àquelle typo de belleza.

Foi firme companheira, mas não presa.
Por que terminou rapido? Não sei.
Talvez falhou naquillo em que falhei:
não termos posto as chartas sobre a mesa.

Deviamos ter dicto mutuamente:
De quattro! De joelhos! Chupe! Lamba!
Apenas nos tractamos como gente.

Meu caso por descaso não descamba:
deslancha, mas não é sufficiente
si a chorda vae por bem com a caçamba.


#363 SOLITARIO [2000]

As raras namoradas são, de facto,
o caso em minha vida mais secreto.
Fui algo parecido ao come-quieto,
embora bem bissexto fosse o prato.

Agora que pertenço ao syndicato
dos cegos, excluidos e sem-tecto,
carencia dum carinho, dum affecto,
não é maior problema, é o que constato.

Ter sido pouco amado acaba sendo
vantagem, pois não fico acostumado
ao beijo, e dos abbraços não dependo.

Na hora de dormir, porem, de lado
me deito, e ao pesadelo mais horrendo
me rendo, em almofadas agarrado.


#364 PURGATORIO [2000]

Verdade por verdade, dois momentos
em que me humilho em publico e me presto,
a céu aberto, ao torpe, ao indigesto
inferno, a saciar maus elementos.

Avesso paraiso, os poeirentos
sapatos que lambi e jamais detesto
ficaram na memoria, como um resto
de vida nestes dias tão cinzentos.

A turma do primario e os veteranos
daquelle trote, os unicos que são
reaes tesões em todos esses annos!

Consolo, agora, só masturbação.
Não ha christão que aguente sem romanos,
nem eu, sem philisteus, serei Sansão.


#365 MARRETEIRO [2000]

Missangas, badulaques, miudezas.
Ao sol, quinquilharia, livre feira.
Na esquina, na calçada, na ladeira,
offertas, novidades e surpresas.

Muambas que deixaram de ser presas.
Comidas que não vão à geladeira.
Gorgetas na sargeta, na sujeira.
Achaques a pessoas indefesas.

O rapa passa rapido e reprime.
Mais rapido, o ambulante se mixtura
ao povo, cuja lucta não é crime.

Nas veias da metropole, a fartura
affronta a auctoridade, que se exime
da culpa, da lição, da acção, da cura.


#366 PERUEIRO [2000]

Direito de ir e vir, na urbana zona,
ja vem adjectivado: clandestino.
Sem poncto inicial e sem destino,
é como andar ao léu, pedir carona.

Milhões de passageiros veem à tonna   [vêm]
no mar do subemprego citadino.
Em rica limusine os leva o fino
chofer, e a domicilio os estaciona.

Sem omnibus ou taxi ou trem, o povo
o vê como o ceguinho vê seu guia.
Sem elle não vou longe: nem me movo.

Melhor que caravella em calmaria
é ter esse Colombo com seu ovo.
Pão nosso, lotação de cada dia!


#367 OFFICE-BOY [2000]

Moleque de recados não é tudo:
um leque de peccados é seu forte.
Quer seja por dinheiro ou por esporte,
trambica, transa, trampa, encara o estudo.

O tennis é surrado, o pé thalludo.
O braço callejado no transporte.
Conhece o centro velho, a zona norte,
os campos, os jardins. É surdo-mudo.

Podendo, é da madame o gigolô.
As bichas chupam loucas sua caceta.
Rockeiros cheiram rindo seu cocô.

Somente no momento da punheta
esquece de se ver como um robô.
É virgem a menina do estaffeta.


#368 APOSENTADO [2000]

Chuteiras se penduram quando vem
a edade, e na pendura vive o edoso.
Trabalha desde cedo, e só no gozo
do premio merecido vê o vintem.

No topo da pyramide, porem,
alguem o xinga até de preguiçoso.
Governo vagabundo, vil, vaidoso
é aquelle cujo pappo é o nhem-nhem-nhem.

O velho enfrenta fila e pede esmola,
emquanto, do outro lado do balcão,
risonhos burocratas comem bola.

Politicos não pensam em pensão,
pois, quando se aposentam, quem controla
seu saldo é o sancto banco do canthão.


#369 SEM-TECTO [2000]

Malloca a mais saudosa foi aquella
que fez do Adoniran chronista urbano.
O Joca, o Matto Grosso e outro fulano
são symbolos que a musica congela.

Cortiço ou invasão? Bairro ou favella?
Blocado, sublocado ou subhumano?
Qualquer habitação serve de panno
de fundo para o enredo da novella.

Paredes teem ouvidos, não teem olho.
Um simples papellão pode ser casa.
O pobre não precisa de ferrolho.

Noel tambem foi genio: é cama rasa
a folha de jornal na qual me encolho.
O orvalho é o tecto, e o cego ave sem asa.


#370 SEM-TERRA [2000]

Não ha justiça agraria sem reforma,
repete o campezino rebellado.
"Ou cedem-me o terreno, ou eu invado!"
E o latifundiario se inconforma.

Marxismo primitivo, mas em forma:
Com práxis de guerrilha, lança o brado,
sitia, occupa, pilha a safra, o gado,
arrepiando o estado, a lei, a norma.

Revolução começa pelo campo
e acaba na cidade, onde se juncta
à massa de manobra a mão sem trampo.

No ar, só paira a historica pergunta
que o inepto agente capta pelo grampo:
"Quem disse que a utopia era defuncta?"


#371 HEDIONDO [2000]

Estupros, latrocinios e sequestros,
o horror do genocidio racial
merecem punição especial:
castigos, não sinistros, porem dextros.

O riso é o mais sarcastico dos sestros
que crispam o desenho facial.
Dos crimes ri o Mentor, Senhor de Tal,
o Réu, maior de todos os maestros.

Na certa o Omnipotente é quem responde
por tudo que acontece p'ra quem erra,
e atraz da impunidade Elle se esconde.

Leval-o a Nuremberg, apoz a guerra!
Punil-o com prisão perpetua! E onde?
No inferno que p'ra nós creou: a Terra!


#372 IMMINENTE [2000]

Viver é perigoso, alguem commenta.
Não acho. O maior risco é morrer logo,
e a morte é preferivel, ja que jogo
sem chance de vencer até os noventa.

No empate a morte subita contenta
apenas no placar. Eu não me empolgo.
Ja o pugillismo encerra o assalto, e folgo
sabendo que o gongado não se aguenta.

Perigo por perigo, sou medroso:
evito o suicidio, embora o queira,
temendo o limbo escuro e tenebroso.

A vida é trilha, e passa pela beira
do abysmo, emquanto a cria do Lombroso
me guia pela mão, por brincadeira.


#373 LOMBROSIANO [2000]

Os typos mais crueis teem, sob a pelle,
um traço humilde, fragil, desvalido.
São como um monstro timido, sahido
dos albuns de Lourenço Mutarelli.

Ainda que sensivel se revele,
nenhum de nós é sancto, e não duvido
que até seja capaz de ter comido
o cu da propria mãe, a quem repelle.

Carrasco arrependido emfim se macta.
Evita o masochista a sopa quente.
O sadico tem medo de barata.

A fera raciocina como gente.
Adora flor o frio psychopatha.
Nos pés o estripador cocegas sente.


#374 NYMPHETA [2000]

Dedico-te esta dadiva, ó Dolores,
musa divina, diva doidivanas!
Recebe de presente estes sacanas
bichinhos de pellucia chupadores!

Serão teus companheiros quando fores
brincar de bestialismo. Sem as xanas
de tuas amiguinhas ou das manas,
te sentes tão sozinha e tens tremores!

Coitada da Dolô! Quem dera fosse
dotada duma mansa passarinha!
Mas não! É uma nymphomana precoce!

Ja desde pequenina se entretinha
em jogos. Ao invez da bala doce,
chupava e era chupada na tetinha.


#375 SOLETTRADO [2000] (*)

Decifre um abecê no abracadabra.
Deduza o delta errado do programma.
A formula se grapha com o gamma.
Veado tem hiato na palavra.

John Kennedy deu bode; o Lampe é cabra.
Mamãe amammentando, o nenê mamma.
Do opiparo quitute o aroma chama.
O russo arreda o rico e a roça lavra.

Um esse se assemelha ao saxophone.
O tu, segundo o verbo, é uma pessoa.
"Vê dábliu" é rei plebeu, sem quem desthrone.

O xis parece a cruz, que se abençoa.
Tem cara de forquilha o pissilone.
O zê ziguezagueia, zurze e zoa.


#376 SONORO [2000]

As vozes das vizinhas são distinctas,
algumas estridentes, outra mansa.
Adultas ou com timbre de creança,
nymphetas, quarentonas, velhas, trintas.

Talvez não imagines nem consintas,
mas meu ouvido cego não descansa:
rastreia, pelo predio, a vizinhança;
permeia portas, tectos, luzes, tinctas.

És tu, balzaquiana, que me passas
total tranquillidade no teu tom,
poupando-me de dores e desgraças!

Não sei si és linda, pallida, marron.
Não penso em estaturas, pesos, raças.
Só penso em tua voz, calor tão bom!


#377 REVISTA [2000]

Na cappa, algum palhaço de gravata,
pivô dum novo escandalo bancario.
Na entrada, uma entrevista do Romario,
que ao genio se compara, por bravata.

Encharte colorido autoretracta
o futil bastidor publicitario.
Embora o texto esbanje erro primario,
vem só um rodapezinho como errata.

A pagina de esporte é dephasada.
Fofoca é uma columna concorrida.
O artigo financeiro não diz nada.

Nas photos, só mulheres de má vida.
Resenha litteraria é marmelada.
Cartum sem graça, e a josta ja está lida.


#378 PLURALISTA [2000]

Direito à differença é um novo dado.
Eguaes perante a lei eramos ja,
mas este ninguem tira, ninguem dá,
não pode ser vendido nem comprado.

Si formos deduzindo com cuidado,
nenhum egual ao proximo será.
Um homem quer comer; um outro está
contente e satisfeito por ter dado.

Si todos preferissem verde oliva,
não sei o que seria do amarello!
Ainda bem que existe alternativa!

Leitor do Glauco vê que o feio é bello.
Tiete lê Drummond, pivete o Piva.
O rumo é o mesmo, o trilho é parallelo.


#379 PERIODISTA [2000]

Imprensa que se preza manchetteia:
"Derrota do governo no congresso!"
Jornal que não se oppõe não faz successo:
o editorial na lingua não tem peia.

De charge pamphletaria a folha é cheia.
Um texto está assignado pelo egresso
da esquerda guerrilheira. Um réu confesso
concede uma entrevista na cadeia.

Caderno financeiro é tabuada.
O de internacionaes é diplomata.
Na chronica a policia é que é culpada.

O joven supplemento é só p'ra natta.
Quadrinhos e cruzadas é o que agrada.
Secção de livros vende vento em latta.


#380 CONSOLO [2000]

Não sou leproso, aidetico ou cappado.
Não soffro de impotencia ou allergia.
Não cago septe vezes num só dia,
nem passo todo o mez sem ter cagado.

Não quero ser chamado de veado,
mas vejo a veadagem sem phobia.
Pó, pedra, pico ou gaz não me vicia.
Jamais fumei siquer um baseado.

Mas, em compensação, lembro do olhar
de quem se foi, e à noite não sossego,
tentando com as trevas não sonhar.

Quanto mais vivo, à vida mais me apego.
Emfim, não sou tão victima do azar:
só sou glaucomatoso e fiquei cego.


#381 TELEVISIVO [2000]

No ar, a campean do horario nobre.
O canastrão galan faz da novella
um pico de audiencia. A bella appella
pro sexo si o suspense fica pobre.

Domingo à noite, a polvora descobre
um circo platinado, passarela
de clones, clowns, clichês que a cor congela,
mas o jornal, local, só praias cobre.

Um show ao vivo joga, xinga, julga.
O gordo animador, de dedo em riste,
promove o mundo cão e o mactapulga.

A tela estrella o brega e breca o triste.
Divulga-se o que é vão. Não se divulga
o livro na TV, pois não existe.


#382 MULHERENGO [2000]

A virgem deflorei quando moleque.
A puta frequentei adolescente.
Adulto, foram muitas. De repente,
me caso, e ella me pede que não peque.

Prometto. Mas estava de pileque,
e a chance de trahir é persistente,
mammão e não maçan. Haja serpente!
Agora o casamento vive em xeque.

Desejo ser fiel, mas não consigo.
As timidas alcunham-me de Rambo;
pantheras, de Bambam, mas eu não ligo.

Não pensem que sou Baccho em dithyrambo!
De facto aconteceu, mas não commigo:
é um cara que me conta, emquanto o lambo.


#383 RADIOPHONICO [2000]

Onda sonora, ethereo, eterno meio
de communicação, o mais querido!
A voz é familiar ao meu ouvido,
quer seja o locutor bonito ou feio.

Materia-prima é a musica, recreio
de todos o melhor, mas o sentido
mais magico do radio está em ter sido
noticia urgente, à frente do correio.

No esporte a narração voa na altura
do tempo e movimento da jogada.
No evento grave, é viva: apura e fura.

De pilha ou pau, satellite ou tomada,
comporta até lição, litteratura.
Não tem religião, mas dá-lhe estrada.


#384 PASSIVO [2000]

Amigo meu reclama que exaggero,
vejo guerra civil em todo cantho.
Si tanta violencia causa espanto,
o excesso não é meu: sou só sincero.

Menores internados fazem mero
motim; quem os commanda é o menos sancto.
Os berros dos refens são acalanto
aos tympanos crueis do mini-Nero.

Emquanto a auctoridade não se move,
os jovens se mutilam, decapitam.
Ainda faltará a prova dos nove?

Você tambem é desses que acreditam
que a coisa tem remedio? Então me prove!
Enterrem os defunctos e reflictam!


#385 ACTIVO [2000]

Eu faço! Eu aconteço! Eu bordo e pinto!
Eu sou o tal! Commigo ninguem pode!
Qual cabra brabo o que! Sou mais é bode!
Não vejo macho aqui neste recincto!

Alguem quer disputar commigo o cincto?
Sou campeão no ringue e no pagode!
O besta que encarar, samba e se fode!
Arranco a lingua a quem disser que minto!

Ja fiz muito valente obrar nas calças!
Ja vi dos desaffectos a caveira!
Versões de que fui "píssico" eram falsas!

Posso fallar de gloria a noite inteira!
E tu? Não tens, não vens, não vaes, não valsas!
Sou cego! Arrocto a prosa que bem queira!


#386 VIAJADO [2000]

Um dia, perguntei ao pedicuro
qual pé foi mais difficil no cuidado.
Responde-me que o callo do soldado
não tinha sido assim tão grosso e duro.

A sola do solteiro é couro puro.
Artelho de casado é sempre inchado.
De padre é fino, torto e encavallado.
No preto a planta é plana e o peito escuro.

Me pega o tal callista de surpresa
na hora em que descreve o pé mais feio,
disforme, fedorento e sem leveza:

É o della, a Cinderella, que lhe veiu
dizendo ter nascido uma princeza,
mas victima do tempo de passeio.


#387 TATIBITATE [2000] (*)

A aranha arranha a aranha, e o ratto roe
a roupa rococó do rei de Roma.
Trez tristes tigres trepam em Sodoma.
A plebe applaude o pleito do playboy.

Mammão maduro mancha a mão que o moe.
A dama do masoca o soca e doma.
Glaucomatoso é o globo com glaucoma.
O dedo do detento é duro e dóe.

Bilu, tetéa, pinto, pingolim.
Escubidu, Banzé, Pluto, Cappeto,
Esnupe, Rintintim, Milu, Tintim.

Só sinto somno si me sae soneto.
Pirlimpimpim p'ra mim é pó marfim,
pois o peito do pé do Pedro é preto.


#388 REPUBLICANO [2000]

Da cruz do Pedrão Alvares Cabral
até a suspeita morte do Tancredo,
explode o mau humor do Figueiredo.
A distensão do Geisel abre mal.

O Médici foi tri, mas illegal.
O Costa e Silva é burro que dá medo.
Castello Branco tarda, mas vem cedo
tirar da mão do Jango o manual.

O Janio renuncia à força bruta.
Viaja o Juscelino p'ra Brasilia.
O tiro do Getulio arma a disputa.

Estado Novo segue a velha trilha.
Republica café-com-leite é fructa:
Banana a gente dá, vende e partilha.


#389 MONARCHISTA [2000]

Dom Pedro deu o grito do Ypiranga
e funda no Brasil unico imperio
da America Latina. É joven. Gere-o
como quem pinta o septe e solta a franga.

O filho foi Segundo e, em vez da tanga,
prefere um guardaroupa bem mais serio.
Installa parlamento e ministerio.
Escreve. Estuda. É calmo e não se zanga.

Abole a escravatura e perde o throno.
Faz sello, grava disco e telephona.
Das artes e sciencias é patrono.

Marquez ou conde pode ser cafona.
Um dia, todavia, o Pedro Nono
dará grau de archiduque a uma bichona.


#390 URUGUAYO [2000]

Suissa americana foi alcunha
que algum banqueiro deu, por acto falho.
Quem fez a "Apologia do Caralho"
é o mesmo que compoz seu hymno: Acuña.

Provincia Cisplatina foi à unha,
mas tem dado ao Brasil muito trabalho.
Da coppa de cincoenta é o nosso coalho:
Maracanan calado é testemunha.

Orgulha-se do auctor de "Maldoror",
mas tem na capital, Montevideo,
a copia da argentina, em desfavor.

Seu trunfo mais concreto é arranhacéu:
a torre a que Gaudí não deu valor,
mas manda Barcelona ao beleléu.


#391 PARAGUAYO [2000]

No tempo do Solano era um colosso,
mas, victima da Triplice Alliança,
reverte a condição de liderança
e torna-se um quintal do Matto Grosso.

A guerra o leva até o fundo do poço.
Só sobra velho, invalido e creança.
Jamais a autonomia antiga alcança,
mas ao Brasil é carne de pescoço.

Guaranias, generaes e contrabando
producto interno bruto são ainda.
E bota bruto nisso, vae botando!

Nação irman nos é sempre bemvinda.
Ca, quando um dictador sae do commando,
tem casa p'ra morar, perto da Dinda.


#392 INTEGRALISTA [2000]

Encara a liberdade pelo avesso.
Sauda os camaradas no "Anauê!".
O lider cujo livro a turma lê
é o Plinio, e foi salgado no seu preço.

Seu lastro cultural não desmereço,
mas tira do nazismo aquelle quê
que, embora no Brasil em nada dê,
repudio tem que ter desde o começo.

Si resta algo de bom que se aproveite,
talvez seja a lição do acontecido:
Swastikas não servem nem de enfeite!

Integralismo agora faz sentido
somente de manhan, no pão, no leite,
regimes mais saudaveis que o partido.


#393 INCONFIDENTE [2000]

Foi morto e esquartejado, e hoje é lembrado
por ter-se feito martyr duma briga
que a raça humana irmana, anima e liga:
o anseio à independencia dum estado.

Tem jeito de Jesus crucificado.
Ha semelhança até no auctor da intriga:
Silverio lembra o Judas duma figa,
que entrega a trama e serve ao outro lado.

Mas na Paixão do Christo falta vaga
p'ra apostolos poetas: não se tracta
na Biblia dum Dirceu na sancta saga.

No caso dos mineiros, era a natta
da nossa intelligencia: o tal Gonzaga
deu toques de epopéa à conspirata.


#394 BELLETTRISTA [2000] (*)

Na historia da poesia brasileira
Gregorio, como um satyro, desponcta.
Dirceu canta Marilia, que não conta.
Gonçalves Dias trepa na palmeira.

Rabello é Zé, não tem eira nem beira.
Escravo, ao Castro Alves, vira affronta.
Bilac eleva e leva a lavra em conta.
Delphino é preso ao pé, mas mal o cheira.

Augustos são vanguarda: Alguem os siga!
Oswald e Mario apupam: Pau no apuro!
Drummond, Bandeira, hombreiam, bons de briga.

Cabral é cabra cru, cerebral, duro.
Si Piva quer viver na Grecia antiga,
Mattoso, em trevas, vive no futuro.


#395 REVOLUCIONARIO [2000]

Em trinta e dois, São Paulo se valeu
da causa do direito e da justiça
e poz-se em armas, dando, nessa liça,
lição de civilismo em pleno breu.

Naquelle tempo, o exemplo era europeu:
Paizes açougueiros de carniça
pilhavam e poupavam na Suissa
o erario do operario e do judeu.

Maior revolução não seja aquella!
Dez annos antes, foi tambem paulista
uma semana apenas, mas deu trela.

Quer constitucional ou modernista,
o facto é que São Paulo remodela,
passando os passadistas em revista.


#396 CARIOCA #2 [2000]

Na mui leal e heroica se installava
a corte joanina, la nos oito.
Algum principezinho mais afoito
ficou, e ella deixou de ser escrava.

Hoje é maravilhosa, a nossa oitava.
Por vezes em seus pincaros pernoito
durante a dor da insomnia, apoz o coito,
emquanto a Guanabara a reconcava.

Nem praia, nem estadio me seduz.
Scenarios que relembro são do bonde
passando sobre os arcos de pés nus.

Atraz do balneario é que se esconde
o bairro dos poetas jururus:
Sancta Thereza fica não sei onde...


#397 COLONIAL [2000]

Emquanto eramos só capitanias
estava em Tordesilhas tudo bem.
Até que resolveram ir alem
Raposo, Borba Gatto e Fernão Dias.

Alargam-se as fronteiras. Rodovias
se cruzam na Amazonia. No armazem
empilha-se a madeira. Vão de trem
minerios em milhões de travessias.

Será o Brasil apenas um quintal
de imperios e metropoles do norte,
de States, Inglaterra, Portugal?

Colonizados, sim, até no esporte,
pois nosso futebol, campeão mundial,
tem multinacionaes como supporte.


#398 CIVIL [2000]

Aqui, de dictadura em dictadura,
democracia cae nos intervallos.
Cavallaria é propria de cavallos.
Um homem pode ser cavalgadura.

Republica com fardas se inaugura.
As botas fazem bolhas, causam callos.
Moeda fraca excorre pelos rallos.
Fuzil, neste paiz, ninguem segura.

Um dia, a economia desmorona.
Golpismo, Estado Novo, Redemptora,
acaba tudo em pizza, em puzza, em zona.

Passa de mão em mão, como si fora
a troca duma guarda sem dragona,
sem honra ou tradição, só successora.


#399 POSMODERNO [2000]

Cinema Novo, Bossa Nova, tudo
é novo nesta terra! A velharia
nos vem só do extrangeiro. O que seria
do Chaplin sem o velho cine mudo?

Temos tempos modernos! Tambem mudo
meu modo de pensar a poesia.
Concreto e verso livre contagia,
mas algo mais à frente aguarda estudo:

É o raio do soneto, que ora volta
liberto das amarras do conceito
e sem as egrejinhas como escolta.

Depois do modernismo, vem refeito.
Até o vocabulario ja se solta:
ao puro é duro, e ao sujo está sujeito.


#400 MILLENNARCISISTA [2000]

Não vou brindar a Thanatos nem Eros,
nem Era do Macaco, nem Aquario.
Celebro a exactidão do calendario.
Saudo o anno dois mil, cheio de zeros.

Não fallo dos Iberos, Lusos feros,
que aqui festejam quincto centennario.
As Tagides não canto. Meu scenario
é o barbaro universo dos heteros.

Quinhentos, quattrocentos, pouco importa.
O facto é que o millennio está acabando
e um novo mette o pé na nossa porta.

Machismo é immorredouro! Lembro o bando
mirim que me abusou. Quem me transporta
é Chronos, deus do Tempo, no commando.


septembro/2011 [orthographicamente correctos]